Deixa de começar do zero: o teu primeiro assistente
Pílula 1.5 · Quick win · Guarda o teu método uma vez e deixa de o reconstruir
Ler a história completa
A cena
Nove e meia, meia hora antes de abrir. O El Roble cheira ao café da máquina velha, e o ciano do letreiro da rua Olmos entra pela montra e pousa na sala estreita: no quadro de cortiça com fotografias, na balança gasta, em Roble —com a orelha marcada—, que vigia da prateleira com aquela indiferença de gato que já viu tudo. No ponto da manhã hoje fala-se pouco de trabalho e muito da ponte: Hugo vai para a serra, Marta leva os seus à terra, e até o senhor Ramón apareceu ontem para perguntar se fechavam —e, já agora, para contar que ele não sai de casa—. É a primeira ponte inteira desde que o novo horário lhes devolveu os fins de semana. Nota-se no ar.
Em Sara, não. Desde ontem que lhe anda na cabeça uma coisa que não é desta semana: temos de avisar que fechamos. E ela já sabe, por experiência recente, que isso não é escrever quatro linhas. É lembrar-se de todos: o cartaz para a porta, a mensagem no grupo de WhatsApp, quem não lê WhatsApp —o senhor Ramón, os mais velhos—, o horário que o Google mostra a quem procura “veterinário aberto” nesses dias, e —o pior— quem tem consulta marcada na segunda-feira em que normalmente abrem e precisa de ser chamado um a um. Ela montou tudo há umas semanas com a mudança de horário, e levou-lhe uma tarde. Agora, com a ponte em cima e a sala a encher, olha para o telemóvel em branco e sente aquela preguiça pesada de voltar ao princípio. A tarefa é a mesma de sempre; o cansaço de a refazer também.
O empurrão
—Diego —diz, sem levantar muito a voz—, como é que acabaste por fazer aquilo do horário? Com isto da ponte nem sei por onde começar, e não quero que me escape ninguém.
Diego, que revê a caixa de soros do outro lado, não faz um discurso —Diego quase nunca faz—. Mas levanta os olhos, e por dentro sente o que sente sempre que alguém está prestes a refazer à mão um trabalho que já está resolvido: faz-lhe ruído. Depois daquela tarde do horário, ele não deixou a coisa por aí. Guardou a lista de canais, como a própria IA lhe tinha recomendado. Mas deu mais uma volta —de vez em quando, ao fechar, com o telemóvel mais tempo do que devia e sem ninguém perguntar, porque o silêncio de Diego respeita-se— e descobriu algo melhor do que uma lista guardada: todo aquele método pode ficar dentro de um assistente. Pões as instruções uma vez e, a partir daí, só colas os dados.
Por isso faz a coisa mais Diego do mundo: dá dois passos e desliza o telemóvel pelo balcão. No ecrã, um assistente aberto, “Avisos El Roble”.
—Cola aí os quatro dados da ponte —diz—. A parte do “o que se pode escapar” já está lá dentro. Tira-te o plano de por onde avisar e deixa-te os textos feitos.
E conta o que está por trás em duas frases, que é como ele conta as coisas. Montar a Gema não lhe custou um euro —isso é gratuito—. Ele, por iniciativa própria, paga o ChatGPT desde a história do horário, porque a ferramenta o agarrou e queria mexer nela à vontade. Mas —e aqui Diego vai à frente— não pensa na ferramenta dele, pensa na clínica: como o email do El Roble já é Gmail, talvez para a clínica faça mais sentido o lado da Google. E traz os trabalhos de casa feitos —uma folha a comparar o que cada opção oferece, grátis versus pago e Gemini versus ChatGPT—, com um dado sublinhado que lhe anda na cabeça há meses: o plano pago da Google traz cinco terabytes de Drive, e aí cabem de sobra as radiografias antigas que o computador do raio-x digital anda a acumular sem espaço. Deixa a folha no balcão e volta à caixa. Tanto lhe faz que Sara continue com o ChatGPT do email ou que cada um use o seu; o que ele não suporta é montar duas vezes a mesma tarefa —nem ter radiografias perdidas num disco rígido.
A tarefa do dia a dia
Não é só esta ponte. É agosto, a campanha de vacinação, o “hoje fechamos mais cedo” de um dia solto: de tempos a tempos há um aviso que tem de ser dado bem e em vários sítios, e de cada vez, se não o tiveres montado, voltas a começar do zero —o mesmo plano, os mesmos textos, refeitos de memória—. E não é só avisar. É qualquer tarefa com um método que já afinaste e vais repetir: o email difícil que Sara escreve todas as semanas, o jargão que Hugo traduz para linguagem de tutor em cada consulta complicada, o relatório de alta que Marta escreve dia sim, dia não. Cada um tem a sua boa receita. E cada um paga-a duas vezes: uma ao encontrá-la, e outra de cada vez que a reconstrói para a usar.
Marta, que acompanhou a cena da porta da consulta sem dizer nada —Marta lê as salas antes de falar—, aproxima-se, pega na folha que Diego deixou no balcão e passa-lhe os olhos por cima. Mexe o café e lança uma das suas:
—Ou seja, isto que o Diego fez, cada um com o seu, queremos todos. —Não é uma pergunta—. Então façamo-lo bem. Uma conta da clínica, não a de cada telemóvel. Que os assistentes vivam juntos, soem igual seja quem for a usá-los, e não dependam de o Diego estar cá hoje.
E decide como decide as coisas: com a comparação de Diego à frente, olhando para o que custa e para o que dá. Os assistentes interessam-lhe —usá-los todos os dias, meter-lhes protocolos, tê-los todos num sítio—, e faz sentido que, com o correio já em Gmail, a conta da clínica esteja a um clique. Mas o que a faz mesmo dizer sim é outra linha da folha: os cinco terabytes de Drive. O computador do raio-x está cada semana mais lento, entupido de imagens, e Marta está farta de comprar discos rígidos para o ir esvaziando —uma despesa que nunca acaba—. Com esse espaço na nuvem, as radiografias deixam de sufocar o equipamento e ela deixa de gastar dinheiro em discos. Os assistentes são a cereja no topo. Que fique claro: não é que o Gemini seja “o melhor” —há gostos para tudo; o ChatGPT tem o seu valor, e o Claude também—: é que, para esta clínica, encaixa. Esses vinte e poucos euros por mês não lhe parecem uma despesa, mas mais uma ferramenta da casa, como a centrífuga ou o leitor de microchip. “Entre as tardes que nos poupa e o que deixo de gastar em discos, paga-se sozinho.” Ali, naquele café, o El Roble deixa de ter truques soltos no telemóvel de cada um e começa a ter a sua própria prateleira de assistentes.
O desbloqueio
Quando encontrares não apenas um prompt, mas um método que funciona —uma forma de trabalhar, como a do horário: pergunta o que se pode escapar → propõe o plano → redige cada canal—, não o reconstruas de cada vez. Guarda-o dentro de um assistente. Metes o método uma única vez —o “o que se pode escapar?”, os canais, o formato de cada um, e as regras que não pode esquecer (“não alteres os meus dados”, “avisa-me se faltar algo”)— e a partir daí só colas os dados em bruto do aviso da vez. O que da primeira vez te levou uma tarde, agora sai num minuto, e soa sempre igual seja quem for a usá-lo.
No Gemini, esse assistente chama-se Gema, e criar uma é grátis. (No ChatGPT a mesma ideia chama-se “GPT”, mas aí criá-lo exige plano pago; mesma lógica, etiqueta diferente e preço diferente.) E o critério profissional fica onde tem de ficar: o assistente industrializa o método —o plano, a escrita, o formato—, nunca o critério. A Gema não sabe se tens mesmo consultas marcadas nesse dia, se o dado que lhe deste está correto, nem para quem se pendura cada texto. Isso és tu que defines. A Gema propõe o plano e deixa os textos feitos; que canal se aplica, o dado e a assinatura continuam a ser teus —sempre.
10:02Áudio em espanhol · legendas em espanhol, inglês e português de Portugal.
O assistente, em ação
Vê com um caso real —em resumo, foi isto que a Gema devolveu num teste verdadeiro—. Sara só colou os quatro dados da ponte, em bruto:
Ponte de dezembro: segunda-feira 7 não abrimos (normalmente abrimos) e terça-feira 8 é feriado
Voltamos quarta-feira 9 às 10:00
Urgências: o telefone de sempreE sem lhe explicar mais nada, a Gema tirou-lhe o plano —priorizando sozinha as consultas— e, ainda por cima, uma lista de risco em que Sara nem tinha pensado:
| # | Por onde | O detalhe que se escapa |
|---|---|---|
| 1 | Consultas de segunda 7 | Nesse dia normalmente abrem: ligar uma a uma para remarcar antes de fechar |
| 2 | Cartaz na porta | À altura dos olhos, e colocado com uma semana de margem |
| 3 | WhatsApp (difusão + estado) | Para os mais velhos ou sem smartphone, melhor SMS ou uma chamada curta |
| 4 | Google / Maps (horário especial) | Se não mexeres, o Google dirá “aberto” e virão para nada |
⚠️ E a lista de risco, o que se esquece mesmo: os crónicos e as medicações —quem passa todos os meses para levantar comprimidos ou ração especial e tem de o fazer antes— e as cirurgias recentes —animais operados nessa semana que possam precisar de revisão—.
Por baixo, os textos feitos: o cartaz, o WhatsApp, o SMS para os mais velhos e o texto do Google. O cartaz saiu assim:
AVISO AOS NOSSOS VIZINHOS
Por motivo da ponte de dezembro:
Segunda 7 e terça 8: FECHADO
Quarta 9: voltamos às 10:00
Em caso de urgência, o telefone de sempreA Gema montou um grande plano —com a lista de risco, até melhor do que Sara teria feito à mão—. Mas não se publica assim: Sara põe-lhe o critério, que é o dela, e apanha três coisas. Onde diz “o telefone de sempre”, escreve o número completo —num cartaz público, “o de sempre” não diz nada a quem passa na rua—, e confirma também que o dia 9 é quarta-feira. Depois apanha a grande: a Gema propôs avisar para levantarem a medicação “antes de sábado”, mas o El Roble fecha aos sábados desde o novo horário —quem for no sábado 5 encontra a porta fechada—, por isso muda para “até sexta-feira 4, no máximo”, que é o último dia em que abrem; a Gema não sabe os vossos horários, tu sabes. E abre a agenda de segunda-feira 7 e liga ela às consultas desse dia, porque isso não há cartaz que faça.
(Já agora, acrescenta à Gema que a clínica fecha sábados e domingos, para que não volte a sugeri-lo: quanto mais contexto lhe dás, menos lhe escapa. Mas a última palavra continua a ser tua.)
Que o plano se cumpra de verdade —o número, o dia certo, as chamadas— isso é critério, e é de Sara.
Faz tu em 4 passos
- Abre o Gemini no computador (gemini.google.com), entra em “Explorar Gemas” e carrega em “Nova Gema”. (No telemóvel usam-se; para criar, usa o computador.)
- Dá-lhe um nome (“Avisos El Roble”) e cola o teu método —as instruções abaixo— na caixa de instruções. É o que já sabias fazer, escrito uma única vez; agora vive dentro da Gema.
- Testa-a na pré-visualização com dados reais. E —o que mais se esquece— carrega em “Guardar”. A pré-visualização não guarda sozinha: se saíres sem guardar, perdes tudo.
- Usa-a: abre a tua Gema, cola os dados em bruto e já está. Revê o dado à mão —datas, telefones— e faz tu a parte do mundo real —ligar às consultas, mexer no Google, pendurar o cartaz—. Isso não se delega.
Truque de Diego: mete na Gema, no fim, as regras que mais te esqueces quando vais com pressa —“não alteres nenhum dado”, “avisa-me se faltar algo em vez de inventares”, “português de Portugal”—. Uma vez lá dentro, ela cumpre-as sempre, mesmo quando estás de rastos. A única coisa que a Gema não sabe é para quem é o aviso e se o dado está certo: isso continuas a pôr tu.
As instruções da tua Gema · copia-as
Isto é o que colas uma única vez ao criar a Gema. É o método do horário —perguntar o que se escapa, propor o plano, redigir cada canal— guardado lá dentro:
És o meu assistente para comunicar alterações e avisos de uma clínica veterinária de bairro: alterações de horário, pontes e férias, campanhas, fechos de um dia. Eu dou-te dados em bruto e tu ajudas-me a avisar bem, sem me esquecer de ninguém.
Trabalhas em duas partes:
1) O PLANO. Antes de redigir, dá-me uma tabela breve com os CANAIS e ações mais úteis para uma clínica de bairro, ordenados por prioridade, incluindo sempre o que costuma escapar:
- o cartaz (onde colocá-lo),
- WhatsApp e quem não o lê (mais velhos, sem telemóvel) → SMS ou chamada,
- Google/Maps (horário especial),
- as CONSULTAS já marcadas nesses dias → avisar uma a uma.
Acrescenta uma breve “lista de risco”: quem é fácil esquecer.
2) OS TEXTOS. Redige cada canal que faça sentido, pronto a usar, em português de Portugal: claro, próximo e de bairro, sem floreados, cada um com o tamanho e o tom do seu sítio (o cartaz legível de relance, o WhatsApp curto e caloroso, o texto do Google breve).
Regras que nunca mudam:
- Respeita EXATAMENTE os dados que te dou (datas, horários, telefones): não alteres, inventes nem completes nenhum.
- Se algo te parecer um erro ou faltar um dado, AVISA-ME em vez de o resolveres por tua conta.
- Não incluas dados de clientes concretos.Uma vez lá dentro, já não explicas o método: só colas os dados do aviso e a Gema faz o resto.
Descarrega os apontamentos práticos da pílula: o que é um assistente de IA, quando vale a pena criar uma Gema ou GPT, diferenças úteis e passos para o montar na clínica.
Antes → Agora
Antes. Cada aviso começava do zero: refazer de memória o plano inteiro e todos os textos, sempre, com medo de que alguém ficasse esquecido —e, mesmo assim, alguém à porta no dia em que achava que abriam—.
Agora. Montas uma vez (alguns minutos). A partir daí, colas os dados em bruto, sai o plano e os textos, revês datas e consultas à mão, e avisas. A mesma voz para toda a clínica, e nunca mais começar do zero.

Antes de começar
- A Gema propõe e redige; o dado, o clique e a assinatura são teus. Antes de pendurar ou enviar qualquer coisa, revê à mão tudo o que seja um dado —datas, horários, telefones— e faz tu o que pertence ao mundo real: ligar às consultas desses dias, atualizar o Google, pendurar o cartaz. A Gema não liga por ti nem altera a tua ficha do Google.
- Criar Gemas é gratuito —podes montar a tua primeira hoje, sem pagar, a partir do computador—. Na história, a clínica decide dar mais um passo e contratar Google AI Pro (cerca de 21,99 €/mês) porque vê valor: uso diário sem ficar curta, poder dar aos assistentes os seus próprios documentos, 5 TB de armazenamento —onde finalmente cabem as radiografias digitais acumuladas no El Roble— e todos os assistentes numa só conta da clínica. Mas para começar a testar, não precisas. (No ChatGPT a mesma coisa é um “GPT”, e aí criar um exige plano pago.)
- Ferramentas diferentes, de propósito. Ao longo da série vais ver-nos usar ChatGPT, Gemini e Claude conforme a pílula —não é distração—. O que ensinamos é a técnica, que funciona da mesma forma em todas; qual escolher para cada trabalho é uma pílula em si, e chega na Fase 2.
- Isto é para comunicação geral da clínica —horários, avisos, alterações, campanhas—. Como são textos públicos, não há dados de paciente a proteger. O que envolver dados de um cliente concreto é outra história; veremos isso no momento certo.
- Precisa de ligação: é processado na nuvem.
