O relatório de alta que evita três chamadas
Pílula 1.10 · Quick win · Não escrevas nada de novo: dá à IA o teu material e a tua estrutura
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A cena
Quinta-feira, a meio de novembro. Um daqueles dias que começam com duas urgências e acabam sem que ninguém se tenha sentado.
Káiser entrou de manhã. Bulldog inglês, sete anos, vinte e oito quilos que deveriam ser vinte e três, e um nódulo no flanco esquerdo que crescia há várias semanas e que o cão já lambia até ficar em carne viva. Anestesiar um braquicéfalo com excesso de peso não é como anestesiar um cão qualquer: no historial há três páginas sobre como fazê-lo, escritas ao longo dos anos. Hugo leu-as por inteiro antes de começar. Anestesia geral com intubação, bloqueio local e toda a tarde de recuperação sob vigilância. Às sete e vinte, Káiser já estava desperto e de pé, a rosnar para o colar isabelino com a dignidade ofendida dos bulldogs.
E, quando Pacheco o veio buscar, Hugo fez aquilo que, há alguns meses, não sabia fazer —aprendeu da pior maneira, com uma gata renal e uns tutores que saíram sem terem percebido nada—. Não despejou a informação toda de uma vez. Baixou-se até à altura do cão, pousou-lhe a mão no dorso e explicou tudo devagar. Deixou-o perguntar duas vezes. E Pacheco —que é Pacheco, o daquele e-mail por causa da fatura, o que escreveu que estava a pensar levá-lo à veterinária do Paseo— assentiu, disse «depois dizes-me alguma coisa sobre o nódulo» e esperou junto à porta enquanto saía a impressão.
O relatório é gerado pelo programa de gestão e sai bem. Cabeçalho da clínica, dados do paciente, procedimento, medicação dispensada, um espaço para a próxima consulta. Nada a apontar. Hugo entregou-lho, desejou-lhe boa noite e foi fechar a clínica. Lá fora já era de noite e o ciano do letreiro da rua Olmos percorria o corredor até à porta, sem chegar a entrar por completo. Roble passou à frente dele sem olhar, a caminho da prateleira. Às 20:10, apagavam-se as luzes.
Nas vinte e quatro horas seguintes, o telefone tocou três vezes.
Às 23:40 dessa mesma noite, para o telemóvel das urgências: «A ferida tem um alto duro por baixo e está roxa. Desculpa estar a ligar a esta hora, mas não sabia se isto era normal.»
Na sexta-feira, às 9:50, e foi Sara quem atendeu: «Olhe, ele pode comer normalmente? É que não come. Dou-lhe a ração habitual ou alguma coisa mole?»
E às 12:30, novamente Sara: «É sobre os comprimidos. Há um branco e um cor-de-rosa. Qual é qual? Dou-os com comida?»
E houve uma quarta coisa, sobre a qual ninguém telefonou a perguntar e que, por isso, é a pior: Pacheco tinha tirado o colar isabelino na primeira noite para ele dormir descansado.
O empurrão
Sara não se irrita com Pacheco. Irrita-se com a folha.
Porque, depois da terceira chamada, faz aquilo que faz quando algo se repete: pega no relatório de Káiser, senta-se durante cinco minutos e procura. E está lá tudo. As três coisas. No mesmo parágrafo.
«Hematoma e edema ligeiro nos primeiros dias, dentro do esperado.» — Essa era a chamada das onze e meia. «Dieta mole durante 24-48 h.» — Essa era a das nove e cinquenta. «AINE durante 5 dias com comida. Antibiótico durante 7 dias de 12/12 h.» — E essa, a das doze e meia.
Estava escrito. Estava bem escrito. E não serviu de nada.
Quando o mostra a Hugo, ele também não tenta defender-se —isso já aprendeu—. Olham juntos para o parágrafo e percebem ao mesmo tempo: são setenta palavras seguidas, escritas por um médico veterinário para outro médico veterinário e ordenadas segundo a lógica da clínica —procedimento, achados, tratamento, acompanhamento—. Às onze e meia da noite, com o cão à frente e a ferida roxa, a resposta está lá dentro; mas é preciso ir procurá-la. E ninguém procura a essa hora. Telefona.
É então que Sara pega na sua folha de tarefas pendentes e lhe mostra a margem, onde tem cinco coisas anotadas há meses. Não são de Káiser: são as que surgem sempre, depois de qualquer alta, com qualquer cão e qualquer tutor.
Se aquilo que vê na ferida é normal ou se tem de vir à clínica. Se pode comer e o quê. Como e quando se dão os comprimidos. Durante quanto tempo tem de usar o colar. E quando tem de voltar.
Hugo fica a olhar para aquelas cinco linhas mais tempo do que é preciso para as ler. Porque ali está o molde de uma alta perfeita —a ordem exata pela qual um tutor precisa da informação— e não é o médico veterinário que o tem: é a receção, de tanto responder ao telefone.
Nessa noite, experimenta. E faz o mais razoável, aquilo que qualquer pessoa faria: se o problema é a forma como está escrito, que o escreva melhor. Abre o Gemini e pede «um relatório de alta pós-cirúrgica para um cão operado a um nódulo».
O resultado é um modelo excelente. E não lhe serve para nada. Leva dois minutos a perceber porquê —e o motivo não é o que esperava—.
A tarefa de todos os dias
Não é Káiser. É cada alta, cada prescrição, cada conjunto de «instruções para casa» que sai por aquela porta.
E o custo de o fazer mal não é o papel: é tudo o que vem depois. As chamadas vão parar à receção, não a quem assinou a alta —cinco minutos cada uma, em hora de ponta, com a sala cheia e alguém à espera de pé—. A prescrição é cumprida pela metade. O colar é retirado na primeira noite. E o tutor que não telefona é pior do que aquele que telefona: esse procura na Internet, fica com a dúvida ou decide por si próprio.
Porque a alta é a única coisa tua que fica em casa dele. Tens dois minutos com ele no consultório; aquele papel fica uma semana em cima da mesa da cozinha e é lido às onze da noite, com o cão estranho e sem ninguém a quem perguntar. Numa clínica de bairro, aquela folha é a clínica durante sete dias.
E a armadilha é que já sabes isso. Escrevê-la bem, completa e em linguagem clara demora quinze minutos por alta. Quinze minutos que, às 19:40, não existem. Por isso, sai aquilo que o programa gera. Não por desleixo: por falta de tempo.
O desbloqueio
Na 1.3 aprendemos a traduzir: dizer o mesmo por outras palavras para que o tutor perceba. Hoje não vais traduzir nada. Hoje vais decidir a ordem — e não vais escrever uma única linha nova.
Porque, se pedires à IA «faz-me um relatório de alta», ela dá-te o relatório de alta de ninguém: bonito, genérico, com uma dúzia de espaços para preencher à mão e —isto é o que não se espera— com meia dúzia de coisas afirmadas como certas que ninguém lhe disse. Não falha onde estás a olhar. Falha onde não estás.
A técnica de hoje divide o pedido em duas metades que quase toda a gente mistura: ISTO É O QUE TE DOU (a tua matéria-prima, em bruto) e ISTO É O QUE QUERO (o molde de saída, escrito por ti). Três coisas fazem dela uma técnica:
Em cima, o que já tens — e não o escrevas: copia-o. É aqui que está a verdadeira poupança. Não é preciso redigir notas novas: o parágrafo de observações que o teu programa de gestão já guarda serve tal como está, com as abreviaturas e o estilo telegráfico. Copia-o e cola-o sem lhe mexer. Ordená-lo é precisamente o trabalho que lhe vais pedir; se fores tu a ordená-lo, já fizeste o trabalho.
Em baixo, o molde — e o molde és tu que o escreves. Aqui está a pílula inteira. Não peças «um relatório de alta»: indica-lhe as secções pelas tuas palavras e pela ordem em que o tutor vai precisar delas, não pela ordem em que tu pensas nelas. Tu pensas em procedimento → achados → tratamento → acompanhamento. Ele, às onze e meia da noite, procura duas coisas: se aquilo que está a ver é normal e se tem de telefonar já. Isso fica logo no início. O molde da El Roble nasceu das cinco perguntas a que Sara responde por telefone todas as semanas: o que lhe fizemos hoje · telefone-nos já se… · como vai estar nestes dias · o que lhe dou, quanto e quando (numa tabela) · o que NÃO pode fazer · próxima consulta. O teu surgirá das tuas perguntas, que já conheces.
Duas regras, não uma. «Usa APENAS os meus dados; o que faltar, escreve como
[PENDENTE]e não inventes» protege-te das lacunas. E «não acrescentes conselhos, cuidados, consultas nem recomendações que eu não te tenha dado» protege-te dos enchimentos — que é por onde realmente se infiltram. Uma só das duas não chega. Esse[PENDENTE]a meio da folha não é um erro: é a ferramenta a avisar-te de que ali falta uma decisão tua. (Se já ditas histórias clínicas, já o usaste sem lhe chamares isso.)
E o limite, que aqui não é um pormenor: a IA não está a escrever uma alta, está a mudar a forma da tua. A prescrição, a dose, o tempo de utilização do colar e aquilo que conta como sinal de alarme são decididos e assinados pelo médico veterinário, antes de abrir qualquer chat. Com uma consequência que convém ter clara desde o início: isto não corrige notas incompletas. Organiza o que existe. Se no teu relatório não estiver escrito que o cão vai estar mais parado nas primeiras quarenta e oito horas, também não estará no papel do tutor. A IA deixa-o por escrito; o critério, a prescrição e a assinatura são teus.
14:57Gravado em direto no Gemini com o caso de Káiser. Vê-se o relatório gerado pelo programa de gestão e as três frases que respondiam às três chamadas, enterradas num parágrafo de setenta palavras. Depois, o pedido sem mais nada: surge um modelo excelente com doze espaços… e com uma consulta de reavaliação que ninguém marcou, uma cirurgia declarada «sem complicações» sem a ter visto e quatro números inventados. E, por fim, a técnica: cola-se o parágrafo do programa tal como está e o molde de Sara com as duas regras. Sai a alta, numa página, com cinco [PENDENTE] nos sítios certos. O último minuto não é feito pela máquina.
A alta, na prática
Isto saiu mesmo no Gemini, em duas tentativas. (Com a versão gratuita, e de cada vez devolve um resultado ligeiramente diferente: é um rascunho para ajustar, não um veredito.)
A primeira tentativa: pedir um modelo
«Faz-me um relatório de alta pós-cirúrgica para um cão operado a um nódulo.»
Saiu um documento correto e bem organizado. Com doze espaços entre parênteses retos —[Nome do animal], [Raça], [Dose], a cada [X] horas…— muito bem colocados, precisamente aquilo que tranquiliza. O problema é o que está à volta dos parênteses retos, afirmado como certo:
«A cirurgia decorreu sem complicações e a recuperação anestésica imediata foi favorável.» Inventou o resultado de uma cirurgia que não viu. Se isto for impresso tal como está, a clínica está a assinar por escrito algo que ninguém confirmou.
«Primeira consulta de controlo: 3 a 5 dias após a cirurgia.» Inventou uma consulta. E o tutor aparece à porta na segunda-feira, porque está escrito no papel.
«Inspecionar a ferida 2 vezes por dia» · «passeios curtos de 5 a 10 minutos» · «metade da dose habitual de alimento» · «oferecer água em pequenas quantidades». Quatro instruções com números que ninguém indicou. Parecem razoáveis. Esse é o problema.
«Antibiótico (se necessário)» — decidiu que talvez não seja preciso.
E, no título do procedimento: «Excérese cirúrgica de massa subcutânea». Em português escreve-se exérese.
Não há número de telefone. Não há indicação da hora-limite para telefonar: diz «dirigir-se ao centro» e mais nada. E não há qualquer vestígio de Káiser —nem bulldog, nem vinte e oito quilos, nem o nódulo ulcerado—.
E não foi azar. Da vez anterior em que experimentámos o mesmo, inventou outras coisas —um «protetor gástrico (opcional)» que ninguém tinha prescrito e cuidados da ferida «com clorexidina ou Betadine diluído» que ninguém tinha indicado— e voltou a escrever mal a mesma palavra, de outra forma: «exegese». Duas tentativas, duas invenções diferentes e, nas duas vezes, a palavra técnica do título estava errada. Não é um erro pontual: é assim que funciona. Pedes-lhe um documento sem lhe dar nada e ela tem de escrever alguma coisa.
A segunda tentativa: as duas metades
Chat novo. Em cima, o parágrafo de observações copiado do programa de gestão, sem alterar uma vírgula. Em baixo, as seis secções de Sara e as duas regras. E saiu isto, numa página:
1. O QUE LHE FIZEMOS HOJE Retirámos-lhe um nódulo que tinha na pele do lado esquerdo do corpo (flanco esquerdo), que estava ulcerado. A cirurgia correu muito bem e sem qualquer problema. […] Enviámos a amostra do nódulo para análise no laboratório. Teremos o resultado dentro de 7 a 10 dias.
2. TELEFONE-NOS JÁ SE… A ferida sangrar · Houver mau cheiro na zona · Houver um inchaço importante ou que esteja a aumentar · Estiver há mais de 24 horas sem querer comer · Estiver muito abatido ou apático · Tiver vómitos.
3. COMO VAI ESTAR NESTES DIAS É perfeitamente normal e não há motivo para preocupação se, durante os primeiros dias, vir uma pequena nódoa negra ou um ligeiro alto à volta da zona. Está dentro do esperado.
4. O QUE LHE DOU, QUANTO E QUANDO (tabela) Anti-inflamatório (AINE)
[PENDENTE: nome comercial e dose]· Para a dor e a inflamação · Durante 5 dias[PENDENTE: horário ou frequência]· Sempre com comida Antibiótico[PENDENTE: nome comercial e dose]· Durante 7 dias, a cada 12 horas ·[PENDENTE: se é com ou sem comida]5. O QUE NÃO PODE FAZER Não pode tirar o colar isabelino: deve usá-lo permanentemente até retirarmos os pontos. · Não pode fazer exercício · Não pode tomar banho · Não pode subir nem descer escadas.
6. PRÓXIMA CONSULTA Retiraremos os pontos dentro de 10 a 12 dias
[PENDENTE: data e hora exatas da consulta].
Cinco [PENDENTE]. E tudo o resto desapareceu. Nem consulta de controlo inventada ao fim de três dias, nem cuidados da ferida, nem protetor gástrico, nem passeios de cinco a dez minutos, nem meia dose de alimento. Não porque lho tenhamos pedido: mas porque lhe dissemos para não acrescentar nada que não lhe tivéssemos dado.
Repara também em dois pormenores de ordem: «Telefone-nos já se…» aparece em segundo, não em quinto. E o colar isabelino foi para «O que NÃO pode fazer», que é aquilo que é —uma proibição, não um medicamento—.
E, para fazer tudo isto, não se escreveu nada de novo. É o parágrafo que já estava no programa.
E o ajuste, que o Gemini não faz
- As cinco decisões, à mão. Doses, horários, se o antibiótico é administrado com comida e a data da consulta. Isso não se delega nem se dita a um chat.
- Aquilo que preencheu a mais, que é subtil. Hugo escreveu «sem intercorrências»; no papel diz «a cirurgia correu muito bem» — subiu o tom. E inventou os dois «para quê»: ninguém disse por que motivo era administrado o antibiótico, e «para prevenir ou tratar infeções» não significa nada. Sai e coloca-se a razão concreta: porque o nódulo estava ulcerado.
- Aquilo que está a mais. «Às 19:20 já estava desperto e de pé» é um dado para a ficha, não para a mesa de uma cozinha. E os termos técnicos que trouxe das notas —(tumefação), (anorexia > 24 h), (edema)— saem: quem lê isto não precisa de saber como se chama em linguagem veterinária.
- Aquilo que falta. Diz «contacte imediatamente o centro». Como? Até que horas? Acrescentam-se o telefone e o horário: «até às 22:00, para o número fixo; a partir dessa hora, para o telemóvel das urgências».
- E aquilo que não está porque ninguém o escreveu. A secção 3 só fala da ferida. Não diz que o cão vai estar mais parado e com menos apetite nas primeiras quarenta e oito horas — que corresponde a metade das chamadas recebidas. Porque não o diz? Porque não estava no relatório do programa. Hugo acrescenta-o e, já agora, acrescenta-o também às suas notas, para a próxima vez.
E Marta, que passa atrás deles e lê a folha por cima do ombro:
—Para este, não escrevas «dieta mole». Diz-lhe o quê e quanto. E não lhe aumentes a dose de alimento, porque o cão já tem peso a mais.
E a linha fica assim: «Esta noite, meia dose da ração habitual, humedecida com água morna. Amanhã, a dose normal. Nada de biscoitos nem da vossa comida: Káiser já tem peso a mais.»
Porque, para Pacheco, «dieta mole durante alguns dias» não serve: interpreta-a à sua maneira, e a sua maneira é sempre a mais. Para um homem que discute tudo e que adora aquele cão ao ponto de o alimentar em excesso, serve uma instrução exata e sem sermões. Os sermões entram-lhe por um ouvido e saem pelo outro; os números, cumpre-os. Isso não está no historial de Káiser: está em vinte anos a conhecer as pessoas que entram por aquela porta.
A alta coube numa página. E, desta vez, não foi preciso devolver nenhuma chamada a Pacheco.
O que já levas contigo
Vais na décima, e isto já não são dez truques soltos. Repara no que se vai acumulando:
- Da 1.1, trazes o
[pendente]. Já o usavas ao ditar o historial, sem lhe dar um nome. Hoje deixa de ser uma mania e passa a ser uma regra escrita no prompt. - Da 1.3, trazes a linguagem; hoje defines a ordem. Nessa pílula, aprendemos a dizer o mesmo de outra forma para que o tutor perceba. Aqui não traduzes: decides o que vem antes e o que vem depois. São duas competências diferentes e ambas são necessárias.
- Da 1.9, trazes o hábito de lhe dar o teu material. Nessa pílula, davas-lhe os teus historiais para encontrar o padrão. Hoje, dás-lhe aquilo que o teu programa já guarda — e, além disso, és tu que lhe indicas o molde.
E vais querer isto sempre da mesma forma: o mesmo molde, as mesmas secções, as mesmas duas regras. Guarda o prompt onde esteja à mão. Na próxima, deixamos de o colar.
Faz tu mesmo em 4 passos
- Copia o que já tens. Abre o relatório de alta gerado pelo teu programa e copia o bloco de observações tal como está, com as tuas abreviaturas. Não o passes a limpo: é precisamente isso que vais delegar. E decide tu, antes de abrires seja o que for, a prescrição e aquilo que conta como sinal de alarme.
- Escreve o teu molde uma vez. As secções pelas tuas palavras, pela ordem em que o tutor precisa delas às onze da noite. Se não souberes quais são, pergunta na receção: quem atende o telefone conhece as cinco perguntas de cor.
- Junta tudo numa só mensagem:
ISTO É O QUE TE DOUem cima,ISTO É O QUE QUEROem baixo. Com as duas regras incluídas: o que faltar,[PENDENTE]e não acrescentes nada que eu não te tenha dado. - E a tua parte, que não se delega. Preenche os
[PENDENTE]. Retira aquilo que acrescentou a mais e o que não é necessário. Indica até que horas e através de que número se pode telefonar. Acrescenta o que estiver em falta por não constar das tuas notas —e anota-o também nelas, para a próxima vez—. E assina.
Truque da Sara: o bom molde não está com quem escreve a alta; está com quem atende o telefone. Durante uma semana, anota as perguntas que te fazem depois de cada alta. Ao quinto dia, já não surgem perguntas novas: esse é o teu modelo, escrito pelo bairro.
O prompt · copia-o
És o meu assistente na redação de relatórios de alta para os TUTORES, não para
médicos veterinários. Não tomas qualquer decisão clínica: eu dou-te a prescrição e tu escreves
na linguagem e pela ordem em que será lida por uma pessoa em casa,
à noite e preocupada.
=== ISTO É O QUE TE DOU (copiado do meu programa de gestão, tal como está) ===
[colar aqui os dados do paciente e o bloco de observações,
sem o ordenar nem retirar as abreviaturas]
=== ISTO É O QUE QUERO ===
Um relatório de alta de UMA página, com estas secções, por esta ordem e com
estes títulos:
1. O que lhe fizemos hoje
2. Telefone-nos já se… (os sinais de alarme, no início e bem visíveis)
3. Como vai estar nestes dias (o que é normal e não deve causar preocupação)
4. O que lhe dou, quanto e quando → NUMA TABELA: medicamento | para que serve |
quando | com ou sem comida
5. O que NÃO pode fazer
6. Próxima consulta
REGRAS (importantes):
- Usa APENAS os meus dados. Aquilo que eu não te tenha dado —doses, datas, horas,
para que serve um medicamento— escreve como [PENDENTE: o que falta].
NÃO inventes nem faças estimativas.
- Não acrescentes conselhos, cuidados, consultas nem recomendações que eu não te
tenha dado.
- Nada de jargão: escreve como explicarias a um vizinho. Se nas minhas
notas houver um termo técnico, traduz e não o deixes entre parênteses.
- Trata o leitor por tu, usa português de Portugal, um tom caloroso e direto. Sem fórmulas de
circular ("não hesite em contactar-nos").
- Frases curtas. Deve caber numa página.Vai mais longe: o mesmo material, outro molde
Aqui percebe-se de imediato que quem manda é o molde, não o material. No mesmo chat, sem voltar a colar nada:
Perfeito. Agora dá-me o MESMO relatório, com os mesmos dados e sem alterar
nada da prescrição, mas com outro molde: para uma pessoa idosa que vê mal
e vai lê-lo sozinha. Frases de uma linha. Sem tabelas. Os medicamentos,
um por baixo do outro com a hora por extenso ("às 9 da manhã" em vez de
"a cada 12 horas"). O telefone, no início e no fim.
Os mesmos dados, a mesma prescrição, o mesmo cão. Um documento totalmente diferente. Não lhe pediste outro conteúdo: pediste-lhe outro molde —e o conteúdo não se alterou—. Guarda os dois. Um serve para quase toda a gente; o outro, para o senhor Ramón e para metade dos clientes de uma clínica de bairro.
(E sim: se lhe pedires, cria um PDF de uma página. Mas é um PDF de ninguém —sem o teu papel timbrado, sem o teu logótipo, sem o teu telefone— e tens de voltar a pedi-lo de cada vez. Isso resolvemos na próxima.)
Antes → Agora
Antes. Ou quinze minutos a escrever a alta à mão —que às 19:40 não tens—, ou o relatório gerado pelo programa: correto, completo e escrito por um médico veterinário para outro médico veterinário. E, nas vinte e quatro horas seguintes, três chamadas que vão parar à receção e um colar isabelino que alguém retira na primeira noite.
Agora. Dois minutos, sem escrever nada de novo: copias aquilo que o teu programa já guarda, dás-lhe o teu molde, preenches os [PENDENTE] e assinas. O melhor não é ter uma folha bonita: é o tutor encontrar a resposta às onze da noite sem telefonar a ninguém, e as cinco perguntas de sempre deixarem de chegar por telefone.

Antes de começar
- A IA não escreve a tua alta: muda a forma da tua. A prescrição, a dose, o período de utilização do colar e aquilo que constitui um sinal de alarme são decididos e assinados por ti, antes de abrires o chat.
- Não corrige notas incompletas. Organiza o que existe. Se no teu relatório não constar que o cão vai estar mais parado durante dois dias, também não estará no papel do tutor. Quando sentires falta de alguma coisa, acrescenta-a também às tuas notas: da próxima vez, já aparece automaticamente.
- Atenção ao que acrescenta a mais: é por aí que se infiltra. Se lhe pedires sem fornecer mais nada, normalmente não inventa a dose —deixa-a entre parênteses retos, de forma muito profissional—; o que inventa é o resto: uma consulta de controlo que ninguém marcou, uma cirurgia «sem complicações» que não viu, quantas vezes por dia deve inspecionar-se a ferida, quantos minutos pode passear. E os parênteses retos, tão bem colocados, são precisamente aquilo que faz com que não releias o resto.
- As duas regras funcionam em conjunto. «Usa apenas os meus dados e assinala o que faltar» protege-te das lacunas. «Não acrescentes nada que eu não te tenha dado» protege-te dos enchimentos. Uma só das duas não chega.
- Também se engana na tua língua. Em dois testes, escreveu «excérese» e «exegese» onde deveria escrever «exérese», e chamou «carocinho» ao que acabara de extirpar. Lê a folha inteira antes de a assinares: o vocabulário também é teu.
- Confirma sempre os números. Doses, dias, datas, horas e o número de telefone. Uma alta com um dado errado é pior do que não ter alta.
- Substitui o vago pelo exato quando souberes que é necessário. «Dieta mole durante alguns dias» é interpretado de maneira diferente por cada pessoa. A máquina não consegue fazer esse ajuste: é preciso conhecer o tutor.
- Dados do cliente, de fora. Para escrever uma alta, não é preciso o nome do tutor, nem o seu telefone, nem a morada: a espécie, o peso, aquilo que foi feito e a prescrição são suficientes.
- Diz até que horas e para que número. Um «telefone-nos» sem número nem horário equivale a um «desenrasque-se».
- Funciona em planos gratuitos (com limite diário). Precisa de ligação à Internet.
Materiais para praticar
Os dois relatórios utilizados na demonstração: o original do PIMS simulado e a versão reorganizada para o tutor.
Os dois relatórios utilizados na demonstração: o original do PIMS simulado e a versão reorganizada para o tutor.
Transcrição do vídeo
Três chamadas pelo mesmo cão em 24 horas, uma delas às onze e meia da noite para o telemóvel das urgências, e o curioso é que, na consulta, tudo tinha corrido bem. O médico veterinário explicou tudo ao tutor com calma, agachado ao nível do cão, deixando-o perguntar duas vezes, e ele saiu de lá a perceber. Isto foi o que levou para casa. E atenção: não é um relatório mau. Sai do programa de gestão da clínica, está bem apresentado e contém tudo. O antibiótico, os dias, o colar, quando retirar os pontos; inclui até o aviso de que a nódoa negra nos primeiros dias é normal. Tudo o que perguntaram por telefone está lá. As três coisas. Mesmo assim, telefonaram três vezes. Por isso, a primeira coisa que ocorre a qualquer pessoa, e é razoável, se o problema está na forma como foi escrito, é pedir à IA que o escreva melhor, que crie um modelo. Portanto, o normal seria dizer-lhe algo como: «Faz um relatório»; por exemplo, vamos colar aqui isto: «Faz um relatório de alta pós-cirúrgica para um cão operado para remover um nódulo». E envia. Bem, basicamente, como veem, aquilo que nos dá... Primeiro, informa-nos de que é um documento informativo; começa logo por avisar que não tem valor médico profissional, e dá-nos uma espécie de modelo onde aparecem imensos campos para preencher, entre outras coisas. Não é exatamente o que queríamos. Bem, aqui aparecem algumas coisas. Poderíamos preencher os títulos e o resto, mas acaba por ficar mais complicado. Porém, se analisarmos com um pouco mais de atenção, provavelmente vamos encontrar alguns erros. O primeiro é que inventa o resultado da cirurgia. Digo isto porque, por exemplo, aqui diz: «A cirurgia decorreu sem complicações e a recuperação anestésica imediata foi favorável». Está bem, pode servir como modelo, mas estamos a afirmar algo que não sabemos se aconteceu assim ou se é preciso alterar, e isso exige sempre revisão humana. Vi aqui também, por exemplo, que aparece «excéresis», que não existe; seria «exérese». E também, provavelmente, como não lhe demos qualquer tipo de instrução, indica-nos, por exemplo, alguns valores que até poderiam fazer sentido, mas temos de rever: os passeios curtos; também deveríamos confirmar as pequenas quantidades, a metade da ração, e se a reavaliação deve ser após determinado tempo... Depois, também nos apresenta alguns sinais de alarme e diz-nos para irmos à clínica, entre outras coisas. Também não está, naturalmente, personalizado e, no fim, temos um modelo que é preciso rever e trabalhar, além de campos que temos de preencher. No fundo, isto dá trabalho e talvez seja um relatório um pouco mais extenso e legível para o tutor, mas dá-nos trabalho. Portanto, esta não é a solução que procuramos. Então, aquilo que procuramos será outra coisa. Assim, o mais lógico é abrir outra conversa, criar um novo chat e explicar-lhe aquilo de que precisamos. Vamos ditar-lhe: «És o meu assistente para redigir relatórios de alta para os tutores, não para os médicos veterinários. Não tomas decisões clínicas. Eu dou-te as indicações e tu escreves na linguagem e pela ordem em que as vai ler uma pessoa em casa, à noite e preocupada». «Dou-te isto». Paramos. Vamos formulá-lo assim, de outra maneira, para que, por exemplo, «Dou-te isto», e vamos fornecer-lho. Esta é a técnica que queremos aplicar hoje. Vamos dar-lhe os dados do relatório que temos, fornecido pelo sistema de gestão. Então, escrevemos aqui, por exemplo, que é o Káiser, canino, bulldog inglês, macho, 7 anos, 28 quilos. Quando partilhamos os dados dos doentes, poderíamos ter um pouco mais de cuidado. Talvez não tanto quando são animais, pois não são dados muito complexos. Ainda assim, podemos mudar o nome ou omiti-lo e deixar apenas os restantes dados; depois, nós preenchemos o nome do doente. Damos-lhe o que constava no relatório: exérese de nódulo cutâneo no flanco esquerdo, ulcerado, sem intercorrências; recuperação vigiada, acordado e em estação às 19:20; amostra enviada para o laboratório, resultado em 7 a 10 dias; colar isabelino permanente até à remoção dos pontos; AINE durante 5 dias com alimento; antibiótico de 12 em 12 horas, durante 7 dias; dieta ligeira 24–48 horas; repouso, sem banhos nem escadas; hematoma e edema ligeiro nos primeiros dias, dentro do esperado. Remoção dos pontos em 10–12 dias; controlo se houver sangue, odor, tumefação, anorexia durante mais de 24 horas, prostração ou vómitos. Estas seriam instruções muito internas e que, possivelmente, não seriam úteis para a maioria dos tutores. Isto poderia provavelmente causar problemas. Mas vamos dizer-lhe: «É isto que quero. Esta é a técnica de hoje». Portanto, creio que lhe vamos dizer o seguinte: «Quero um relatório de alta de uma página, com estas secções, por esta ordem e com estes títulos: o que fizemos hoje; ligue-nos já se...; os sinais de alarme no topo e bem visíveis; como estará nos próximos dias, o que é normal e não deve assustar; o que dar, quanto e quando, numa tabela: medicamento, para que serve, quando dar, com ou sem alimento; o que não pode fazer e a próxima consulta». Além disso, como sempre, vamos tentar definir melhor aquilo que queremos; não apenas os objetivos, mas também um conjunto de regras. Então, vamos dizer: «Regras importantes: usa apenas os meus dados. Tudo o que eu não indicar — doses, datas, horas — assinala como pendente, isto é, indica o que falta. Não inventes nem faças estimativas. Não acrescentes conselhos, cuidados, consultas ou recomendações que eu não tenha dado. Sem jargão; escreve como explicarias a um vizinho. Trata o leitor por “tu”, usa português de Portugal e um tom caloroso e direto, sem fórmulas de circular: «Não hesite em entrar em contacto connosco», ou frases semelhantes... Usa apenas frases curtas, que caibam numa página». Enviamos e vamos ver o resultado. Muito bem, está pronto. Vamos então ver a diferença. A primeira coisa é que nos dá logo um PDF. Se quiserem, podemos vê-lo rapidamente, para perceber o que nos entregou. Bem, dá-nos um relatório de alta. Apresenta-nos diretamente a explicação do que fizemos hoje, numa linguagem muito mais corrente. Dá-nos um segundo bloco com maior destaque, onde avisa diretamente em que situações nos devem ligar se acontecer alguma coisa. Portanto, parece-me bem. Isto é muito importante, pois é aquilo que normalmente se procura quando surge um problema ou qualquer ocorrência. Explica como estará nos próximos dias. Cria uma tabela, o que é bastante interessante pela forma de apresentação: o medicamento, para que serve, quando dar, com ou sem alimento. E, como veem, assinala ainda o que está pendente e não inventou absolutamente nada. Indica o que não pode fazer e a próxima consulta. Também deixámos pendente a marcação da consulta, com data e hora exatas. Portanto, deixa-nos cinco campos por preencher, dá-nos o nome do doente e tudo isso. Entrega-nos em PDF. O que acontece é que não podemos usar este PDF diretamente. Não pedimos um PDF, mas ultimamente os LLM já estão a gerar documentos com o objetivo de nos ajudar. Contudo, neste momento não nos serviria. Felizmente, também gera o mesmo conteúdo em texto. Temos aqui uma pré-visualização e poderíamos copiá-lo para o Word e utilizá-lo. Penso que este formato é bastante mais interessante, pois é o que queremos entregar ao tutor do animal, para que tenha instruções claras, saiba o que aconteceu e o que o Hugo explicou... Está muito melhor organizado aqui do que no modelo que estávamos a fazer e que já era difícil de preencher. Neste caso, bastaria preencher quatro ou cinco campos rápidos, em apenas um minuto, e entregar um relatório muito mais interessante do que o relatório oficial, que me parece um documento mais interno. Portanto, aquilo que quero que retenham desta técnica é que não escrevemos nada de novo. Simplesmente, damos-lhe um prompt um pouco mais elaborado, com as instruções; copiei o que vinha diretamente do programa de gestão e, com esse mesmo conteúdo, gerei uma folha de instruções muito mais próxima do tutor. Ainda assim, haveria aspetos que, naturalmente, poderíamos rever. Creio que, além de preencher tudo o que deixámos pendente, como referimos, também deveríamos confirmar se está tudo correto. Antes, vi aqui, por exemplo: «A cirurgia correu muito bem e sem qualquer problema». É verdade que indicámos que tinha decorrido «sem intercorrências», mas talvez isto exagere um pouco. Poderíamos corrigi-lo. Outra coisa que também podemos corrigir, e que tinha visto aqui: diz «antibiótico», «para prevenir ou tratar infeções». Bem, está correto, é verdade que serve para isso, mas talvez devêssemos explicar ou esclarecer que é porque o nódulo está ulcerado. Ou, talvez, esta nota aqui, onde dizia: «Às 19:20 já estava acordado e de pé». Bem, talvez não seja um dado relevante, ou talvez seja. Cada pessoa fará aquilo que considerar adequado. E talvez estes termos, como «tumefação», «anorexia durante mais de 24 horas»... São todos termos veterinários, clínicos ou médicos. «Edema», por exemplo, talvez não faça sentido explicá-lo ou sequer incluí-lo; não compliquemos a explicação. Mas cada pessoa pode dar-lhe a forma que quiser. No final, temos um modelo muito mais adaptado às nossas necessidades e que podemos realmente aperfeiçoar. E, como antecipação, digo-vos que, na próxima pílula, veremos como fazer isto para obtermos logo o documento tal como o queremos, incluindo a formatação. E vamos utilizar algumas das técnicas que já experimentámos anteriormente para tornar tudo muito mais rápido e evitar fazer todo este exercício, que provavelmente seria um pouco trabalhoso se quisermos entregar sempre este relatório ao cliente; embora seja, naturalmente, muito mais rápido do que fazê-lo manualmente, ainda nos levaria algum tempo. E desculpem, entretanto reparei que havia aqui outro pequeno erro. Por exemplo, em «Como estará nos próximos dias», diz-nos que, nos primeiros dias, poderá ter uma pequena nódoa negra ou um hematoma, o que será totalmente normal, ou um ligeiro inchaço nos bordos da zona. E tínhamos indicado, se bem se lembram, como podem ver no próprio documento do sistema, uma dieta ligeira. Se escrevermos apenas «dieta ligeira», provavelmente o tutor fará aquilo que lhe parecer melhor e irá interpretá-lo à sua maneira. Neste caso, talvez devêssemos acrescentar, por exemplo: «Esta noite, meia dose do alimento habitual, humedecido; amanhã, damos a dose normal; sem biscoitos». Deveríamos incluir isto. Por isso, é sempre importante rever se está tudo incluído. Deveríamos perceber um pouco por que motivo falhou. Mas estas são coisas da IA que, por vezes, tal como completa algumas coisas, também omite outras. Portanto, é isso. Creio que o mais importante é que, como sempre, retiremos a conclusão de que a IA serve para nos ajudar e para fazer 80 ou 90 % do trabalho, e que sejamos nós, com o nosso critério, as orientações definidas e a nossa assinatura, a validar esse trabalho. Vemo-nos na próxima semana.
