Vou ser direto.
Vejo três tipos de veterinários agora mesmo com a inteligência artificial.
Os que não lhe tocaram. Nem ChatGPT, nem nada. Continuam a fazer tudo como em 2019 e esperam que o mundo espere por eles. A esses já lhes dediquei outros posts. Se estás nesse grupo: começa. Abre um chat, pede-lhe que te redija um email, que te resuma um artigo, que te ajude a organizar uma ideia. É grátis. É o primeiro passo. E sem esse passo, tudo o que vem depois não existe para ti. Mas não fiques pelos testes: faz uma formação, mesmo que seja básica. Aprender a usar bem um chat já marca a diferença entre perder tempo e ganhar horas todas as semanas.
Os que já a usam e sabem como tirar partido dela. Fazem-lhe perguntas. Ajuda-os a escrever, a resumir, a procurar informação. Ganham tempo e provavelmente qualidade nalgumas tarefas. É um grande passo e o caminho certo, parabéns. Mas não fiques por aí, “usar IA” não é apenas ter uma conversa com um chat. Estás a usar um fórmula um para ir comprar o pão. O pior: não o sabem.
E depois há um terceiro grupo. Pequeno. Muito pequeno ainda. Os que compreenderam que o chat é apenas a porta de entrada. Que o que há do outro lado é infinitamente maior. Que hoje podem construir coisas que há dois anos precisavam de um programador. A estes dói-lhes outra coisa: o tempo. Sabem o que é possível, mas o seu dia-a-dia não lhes permite desenvolvê-lo. E aqui há uma boa notícia: se sabes o que se pode fazer, podes pedir que alguém o faça por ti enquanto tu te dedicas aos teus pacientes.
Este artigo é focado principalmente nos do segundo grupo. Para que dêem o salto para o terceiro. Mas se és do primeiro, para que vejas para onde as coisas caminham. E se és do terceiro, para te recordares de que não tens de fazer tudo sozinho.

A conversa é apenas a porta de entrada
Quando a maioria dos profissionais — veterinários incluídos — pensam em IA, pensam num chat. Uma janela onde escreves uma pergunta e recebes uma resposta. Às vezes boa, às vezes razoável, às vezes impressionante.
E ficam-se por aí.
Mas o que aconteceu nos últimos meses — e quando digo meses, digo literalmente meses, não anos — mudou as regras do jogo de uma forma que a maioria ainda não processou.
Hoje não podes apenas conversar com uma IA. Podes construir com ela.
Ferramentas. Fluxos de trabalho. Automações. Pequenas aplicações que resolvem problemas muito concretos do teu dia-a-dia. Coisas que há um ano precisavam de um programador. Há dois anos, de uma equipa de desenvolvimento. Há cinco, nem sequer eram concebíveis para alguém sem formação técnica.
E agora estão ao alcance de qualquer um que dedique algumas horas a perceber como funcionam.
Não estou a falar de ficção científica. Não estou a falar de startups de Silicon Valley. Estou a falar de um veterinário na sua clínica, com o seu computador, num sábado de manhã, a construir algo que lhe vai poupar horas todas as semanas.
O círculo que te prende
Mas há um problema. E é um problema que se autoalimenta.
Não tens tempo.
Como não tens tempo, não exploras. Como não exploras, não aprendes. Como não aprendes, não descobres o que é possível. Como não descobres o que é possível, continuas a fazer tudo exatamente igual. E continuas sem tempo.
É o pescadinha de rabo na boca. Um círculo vicioso que se repete semana após semana, mês após mês. E a cada mês que passa, a distância entre o que poderias estar a fazer e o que realmente fazes torna-se maior.

Isto não é exclusivo da veterinária, obviamente. Mas no nosso setor tem uma componente especial.
Os veterinários sempre foram curiosos com a tecnologia. Gostam de aparelhos. Têm investido em equipamento, em ecógrafos, em análises, em cirurgia. Mas isso era tecnologia que se compra, se liga à ficha e funciona. Algo que vês, que tocas, que tem um botão de ligar.
O que está a acontecer agora é diferente. Não é um aparelho. Não é um software que instalas. É infraestrutura. Algo mais parecido com a eletricidade do que com um ecógrafo: uma camada base sobre a qual se vai construir tudo o resto. Isto não se compra num catálogo nem se apresenta num congresso com um stand bonito. E isso gera uma barreira que muitos não sabem como atravessar.
Isso exige outra coisa. Exige sentares-te, explorares, entenderes. Sair da zona de conforto. E aí é onde a maioria trava. Não por falta de interesse, mas porque o primeiro passo não é tão evidente como abrir uma caixa e ligar algo à tomada.
O que significa realmente “construir” com IA
Vou dar exemplos concretos, porque senão, isto soa a palestra de conferência.
Imagina que na tua clínica tens um problema recorrente: os tutores ligam a perguntar por resultados, marcações, horários, o estado do seu animal após uma cirurgia. A tua equipa perde quinze minutos ao telefone em cada chamada. Multiplica isso por cinco ou dez chamadas por dia. São horas investidas em algo que poderia resolver-se de outra forma.
Com as ferramentas disponíveis hoje, poderias criar um fluxo que, quando um processo está pronto, envie automaticamente uma notificação ao tutor por email ou WhatsApp com a informação de que necessita. Sem que ninguém atenda um telefone. Sem que ninguém redija uma mensagem. A equipa intervém apenas quando é necessária uma conversa real.
É complexo? Não tanto como pensas. Requer saber programar? Cada vez menos. Requer perceber que ferramentas existem e como as conectar? Sim. E aí está a chave.
Outro exemplo. O teu site. Aquele que atualizaste há três anos e que desde então é basicamente um folheto digital. Está lá, existe, mas não faz nada por ti. Hoje podes converter esse site num canal ativo: que permita pedir marcações, que responda a perguntas frequentes, que capture informações de novos clientes, que comunique de forma automática. E não precisas de esperar que uma agência o faça nem depender de terceiros cada vez que queres alterar algo. As ferramentas para adicionar essa funcionalidade estão disponíveis e funcionam com linguagem natural.
O teu site deixa de ser uma montra e começa a trabalhar para ti.
E mais um. O teu software de gestão não faz exatamente o que precisas. Nunca o fez. Há anos que pedes funcionalidades que não chegam, adaptando-te a um sistema que foi desenhado para o denominador comum, não para a tua forma de trabalhar. E se pudesses construir pequenas ferramentas que complementem o que o teu software não cobre? Um formulário inteligente para triagem telefónica. Um sistema de acompanhamento pós-cirúrgico automatizado. Um painel que te mostre exatamente os indicadores que tu queres ver, não os que alguém decidiu que eram importantes.
Tudo isso é possível hoje. Não amanhã. Não “quando a tecnologia amadurecer”. Hoje.
A miragem do software que faz tudo
Aqui há uma nuance importante que muitos profissionais não veem.
A reação natural perante tudo isto é pensar: “Sim, mas o meu software de gestão acabará por incorporar IA e fá-lo-á por mim.”
E talvez sim. Alguns farão isso. De facto, já estão a começar.
Mas há três problemas com essa estratégia de esperar.
Primeiro: o modelo. Os softwares de gestão veterinária foram construídos com uma mentalidade de desenvolvimento de outra época. São estruturas rígidas de processos. Fluxos fechados. Funcionalidades que são adicionadas uma a uma, versão a versão. Poderiam ir mais rápido — a própria IA permite-lhes desenvolver a outra velocidade — mas o problema não é o ritmo, é a conceção. Para aproveitar realmente o que a IA oferece, estas empresas teriam de evoluir de um software fechado para uma plataforma aberta: um ambiente onde tu possas construir soluções personalizadas ou integrar ferramentas especializadas para cada processo. E essa mudança de mentalidade não se resolve colocando um chatbot na interface.

Segundo: a genericidade. Quando o teu software incorporar IA, fá-lo-á de forma genérica. Uma funcionalidade igual para todos. O mesmo fluxo para uma clínica de bairro com dois veterinários que para um hospital de referência com vinte. O mesmo relatório. O mesmo processo. Porque é assim que funciona o software de mercado: é desenhado para o número máximo possível de utilizadores, não para ti.
Terceiro: a dependência. Cada funcionalidade que delegas no teu software é uma funcionalidade que não controlas. Não decides quando chega, como funciona nem quanto custa. Estás nas mãos do roteiro de terceiros. E isso, num ambiente que muda a esta velocidade, é um risco.
Não digo que os softwares de gestão não vão evoluir. Digo que o futuro provavelmente não é um software que faça tudo, mas plataformas que permitam integrar, construir e personalizar. E para aproveitar isso, precisas de compreender o que é possível.
Voltamos ao mesmo ponto.
O outro círculo: o que te liberta
Há um momento — e já o vi acontecer — em que alguém quebra o ciclo. Investe um fim de semana. Umas horas. Senta-se, explora, começa a compreender que ferramentas há, o que podem fazer, como se ligam entre si.
E algo muda.
Não é que de repente se torne programador. Não é que deixe de ser veterinário. É que começa a ver possibilidades onde antes só via limitações.
Constrói uma primeira coisa pequena. Uma automação simples. Um fluxo que lhe poupa vinte minutos por dia. E esses vinte minutos convertem-se em espaço mental para pensar na melhoria seguinte. E na seguinte. E na seguinte.
É o círculo virtuoso: aprendes → constróis → ganhas tempo → reinvestes esse tempo a aprender mais → constróis mais.
E o mais interessante é que não tens de fazer tudo sozinho. Uma vez que compreendas o que é possível, podes tomar decisões informadas. Podes pedir ajuda com critério. Podes desenhar soluções mesmo que depois seja outro a implementá-las.
Mas para isso, o primeiro passo é saber o que existe. Porque quem sabe, decide. Quem não sabe, espera.
O fator tempo: o paradoxo central
Já sei o que estás a pensar. “Tudo isto soa muito bem, mas não tenho tempo.”
Eu sei. Acredita que eu sei.
Mas pensa nisto: cada hora que invistas em compreender estas ferramentas tem o potencial de te devolver dezenas de horas ao longo do ano. Não é uma perda de tempo. É um investimento com retorno.
O problema é que o retorno não é imediato. Não é como comprar um equipamento novo que não tens, ligas e no dia seguinte estás a faturar novos serviços com ele. O retorno é progressivo, cumulativo e, no início, difícil de medir.
E por isso a maioria não dá o passo.
Porque o urgente vence sempre o importante. Porque hoje tens consultas, amanhã tens cirurgias, depois de amanhã estás de prevenção. E na próxima semana igual. E na seguinte.
Mas há um momento em que tens de fazer uma pausa e perguntar-te: vou continuar a fazer exatamente o mesmo daqui a cinco anos? Vou continuar a queixar-me de que não tenho tempo enquanto à minha volta tudo muda?
Ou vou investir algumas horas em abrir essa caixa de ferramentas que espera há meses a um canto.
Não é sobre tecnologia. É sobre capacidade de decisão.
Se há algo que aprendi em mais de vinte anos a trabalhar com veterinários e tecnologia, é que o problema normalmente não tem sido a falta de interesse. O problema tem sido a falta de contexto.
Quando um veterinário compreende o que uma ferramenta pode fazer, decide. É verdade que a muitos lhes custa a mudança, que arriscar não é confortável. Mas quando veem o valor e mais colegas a adotam, agem. Sempre foi assim.
Com a IA está a acontecer algo diferente: não veem o valor porque não veem a ferramenta. Só veem um chat. E o chat, por si só, não transforma nada. Quem transforma tudo és tu ao usá-lo como ferramenta, libertando o seu poder.
O que transforma é compreenderes que tens capacidade para construir. Para automatizar. Para criar soluções à medida para os problemas específicos da tua clínica, da tua equipa, da tua forma de trabalhar.
E isso não exige ser engenheiro. Exige curiosidade, umas quantas horas e um guia claro.
Um último pensamento
Os veterinários mais brilhantes que conheço — os que construíram as melhores clínicas, os que inovaram, os que estavam à frente da sua época — muitos deles venderam os seus negócios a grupos corporativos nos últimos anos. Procuravam alívio. Menos gestão, mais medicina. E é compreensível.
Mas uma parte do que os sufocava — a gestão, a administração, os processos repetitivos, a carga que não é clínica mas que consome o dia — hoje tem soluções que não existiam nessa altura.
Se há algo que quero que leves deste artigo, são três ideias:
- Começa. Se não usas IA, começa. E forma-te para a usares bem. Aprender a trabalhar com um chat de forma eficiente já é um antes e um depois. Mas é apenas o alicerce.
- Não fiques por aí. O chat é a porta de entrada porque tudo funciona com linguagem natural. Mas o que está por trás é exponencialmente maior. Automações, fluxos, ferramentas à medida. Abre a mente e explora para além da conversa.
- Se não tens tempo para o construir tu mesmo, não faz mal. Há pessoas que se dedicam a isso. Mas se não sabes o que é possível, não identificarás as oportunidades. E voltarás a cair em soluções genéricas, padrão, que não são desenhadas para ti.
A pergunta não é se a IA vai mudar a medicina veterinária. Ela já a está a mudar.
A pergunta é se vais ser dos que a moldam à sua medida ou dos que esperam que alguém lha dê já feita.
Abrir a caixa não custa muito. O que custa é continuar sem a abrir.